César Gouvea: “O palhaço e o improviso são duas potências que se conjugam”

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César Gouvea: “O palhaço e o improviso são duas potências que se conjugam”

César Gouvea foi, durante nove anos, Doutor da Alegria. O projeto começou em 1991, em São Paulo, inspirado pelo trabalho do palhaço americano Michael Christensen. Desde então, inspirou muitos outros, como é o caso da Trupe da Saúde.

Do dia 13 a 16 de fevereiro, César (mais conhecido como palhaço Cizar Parker) esteve em Curitiba a convite da Trupe para realizar oficinas com o grupo selecionado para as visitas de 2012. Entre preparação dos novos palhaços, dinâmicas teatrais, técnicas de improviso e troca de experiências e sentimentos a respeito do trabalho, César conversou com a Unicultura sobre o improviso como estratégia teatral e de vida, sobre a intervenção do palhaço no hospital e sobre seu projeto vigente, o Jogando no Quintal.

O filósofo Theodor Adorno, que estudou e criou o termo indústria cultural nos anos 40, foi também um crítico de música. Escrevendo sobre o jazz, ele defendia que a improvisação característica desse estilo não é sinônimo de liberdade ou espontaneidade do músico, e sim uma estrutura, um padrão que aprisiona e limita. No teatro, como você vê a improvisação?

Eu vejo o improviso de forma muito positiva, ele pode sim ser olhado no sentido libertador. Você desenvolve o tema que quiser, da maneira que quiser, com os personagens e enredo que quiser. No teatro de improviso, trabalhamos com ferramentas que potencializam a espontaneidade e a criatividade, já que, no mundo em que vivemos, a construção social tende  a desenvolver ferramentas repressoras.

A partir do trabalho no teatro de Improviso é possível levar essas técnicas para a relação com o cotidiano e encontrar vários pontos de intersecção. Talvez pouco adiantaria  vivenciar o estado de espontaneidade e presença apenas nas três horas de treino diárias. Um ótimo treinamento talvez seria experimentar estar presente  em nosso dia-a-dia, mas nossas ações e relações . O palhaço e o improviso, então, são duas linguagens que trabalham essa espontaneidade e o estado presente, duas potências que se conjugam.

Você tocou em um ponto interessante: existe espaço para o inesperado e o espontâneo no dia-a-dia?

O que existe é a necessidade de encontrar esse espaço. Pelo menos é o que acredito, e também minha maneira de encontrar a felicidade pessoal e profissionalmente.

Existe um papel da improvisação que, para além da técnica, causa algo em quem assiste? Quer dizer… O formato do improvisar exige que se diga sim para o outro, mesmo quando se diz não; que se aceite a proposta do outro…

É por isso que o público gosta do espetáculo de improviso: porque ele tem diante de seus olhos uma pessoa vulnerável, frágil, sem garantia de acerto, sendo que o erro pode ser um acerto. Para quem vê, é muito libertador, porque a efetividade não está em primeiro plano – como acontece na vida real. Inclusive muitas pessoas buscam cursos de improvisação justamente para se sentirem mais livres.

É por isso que o palhaço e o improviso funcionam tão bem no hospital? Porque as crianças de certa forma se sentem presas ali naquele ambiente, ou em um corpo doente?

É diferente. Na verdade, são os atores que têm que entrar no mundo das crianças. Elas sim são livres.

O palhaço tem que igualar a criança em liberdade, reencontrar a brincadeira. A figura no palhaço, no hospital, é mais importante que a do improviso. Lá, a limitação é física, da dor. Então é necessário encontrar o lado saudável para que a criança possa brincar: cabe aos profissionais da saúde dar atenção à dor e à doença; aos palhaços cabe ressaltar a saúde.

Vocês, no Doutores da Alegria, faziam avaliações regulares sobre os efeitos do trabalho dos palhaços nos hospitais. O que era possível perceber a respeito do ambiente hospitalar antes e depois da intervenção?

Eu fiquei no Doutores da Alegria por nove anos, mas saí há seis. Então posso falar apenas a respeito do que acontecia naquela época. Éramos acompanhados por uma psicóloga, e ela realizava medições com uma apuração mais técnica, mais exata. O que os palhaços podiam ver claramente era a transformação por meio do exercício do teatro. Isso era muito visível. O palhaço é o responsável por levar o mundo de fora para dentro do hospital, por isso o olhar do palhaço é tão importante: é um olhar lúdico, enquanto o ambiente do hospital é inóspito.

Existe um caso especial para você?

Tem um que eu inclusive contei no filme Doutores da Alegria, e retrata bem essa questão de trazer o mundo de fora para dentro do hospital. Estava em um quarto realizando uma intervenção com um menino de cinco anos, chamado João. Estava organizando uma competição de vôlei. De um lado ficavam a criança e os avós; do outro, os palhaços.

Da janela do quarto era possível ver o prédio de um amigo, que morava na cobertura. Propus para o João ligar para esse meu amigo – que eu chamei de “duende Davi”, porque ele é muito baixinho – para que ele aparecesse e nos visse na janela: “duende Davi, vem me ver?”, o João disse quando ligou. Combinei com o Davi uma visita ao menino, inclusive conseguimos para ele uma roupa de duende. Quando ele foi, o João não estava no quarto, não conseguimos encontrá-lo.

Outro dia retornei ao hospital e encontrei João, ao que ligamos para o duende Davi, e ele apareceu e até subiu no telhado da cobertura! Vimos tudo pela janela, acompanhando pelo telefone. De repente, todas as enfermeiras e outros pacientes estavam na janela para ver o duende Davi – virou algazarra. Meu amigo estava indo viajar, então teve que se despedir do João. Nesse mesmo momento, a enfermeira chefe passou, viu a bagunça, mas não viu o duende. João negou tudo, preferiu manter o segredo entre nós. Chorou tanto de emoção…

Depois disso, a enfermeira chefe recebeu cartas do “duende” por um mês em seu escaninho [risos].

O que é mais difícil e o que é essencial para um palhaço que trabalha dentro do hospital?

O mais difícil acho que é justamente se propor a trabalhar em um hospital, ter contato com a morte de maneira tão próxima. É um trabalho delicado, que vai além do hospital, e faz com que você reveja todos os seus valores e crenças. O fundamental é reconhecer que você, como palhaço, não é o super homem. Você está ali para transformar o ambiente do hospital por meio da arte, mas em relação à doença você é impotente.

Atualmente você está com outro projeto, o Jogando no Quintal, que é um grande sucesso em São Paulo. Também é um trabalho de palhaços e também usa o improviso. Quais as diferenças entre o Jogando e o Doutores?

Externamente, são ambientes diferentes, o que determina as condutas. A abordagem de uma criança hospitalizada, claro, é diferente da de um público “normal”. Mas a vontade de tornar a arte um veículo de transformação permeia os dois projetos.César Gouvea foi, durante nove anos, Doutor da Alegria. O projeto começou em 1991, em São Paulo, inspirado pelo trabalho do palhaço americano Michael Christensen. Desde então, inspirou muitos outros, como é o caso da Trupe da Saúde.

Do dia 13 a 16 de fevereiro, César (mais conhecido como palhaço Cizar Parker) esteve em Curitiba a convite da Trupe para realizar oficinas com o grupo selecionado para as visitas de 2012. Entre preparação dos novos palhaços, dinâmicas teatrais, técnicas de improviso e troca de experiências e sentimentos a respeito do trabalho, César conversou com a Unicultura sobre o improviso como estratégia teatral e de vida, sobre a intervenção do palhaço no hospital e sobre seu projeto vigente, o Jogando no Quintal.

O filósofo Theodor Adorno, que estudou e criou o termo indústria cultural nos anos 40, foi também um crítico de música. Escrevendo sobre o jazz, ele defendia que a improvisação característica desse estilo não é sinônimo de liberdade ou espontaneidade do músico, e sim uma estrutura, um padrão que aprisiona e limita. No teatro, como você vê a improvisação?

Eu vejo o improviso de forma muito positiva, ele pode sim ser olhado no sentido libertador. Você desenvolve o tema que quiser, da maneira que quiser, com os personagens e enredo que quiser. No teatro de improviso, trabalhamos com ferramentas que potencializam a espontaneidade e a criatividade, já que, no mundo em que vivemos, a construção social tende  a desenvolver ferramentas repressoras.

A partir do trabalho no teatro de Improviso é possível levar essas técnicas para a relação com o cotidiano e encontrar vários pontos de intersecção. Talvez pouco adiantaria  vivenciar o estado de espontaneidade e presença apenas nas três horas de treino diárias. Um ótimo treinamento talvez seria experimentar estar presente  em nosso dia-a-dia, mas nossas ações e relações . O palhaço e o improviso, então, são duas linguagens que trabalham essa espontaneidade e o estado presente, duas potências que se conjugam.

Você tocou em um ponto interessante: existe espaço para o inesperado e o espontâneo no dia-a-dia?

O que existe é a necessidade de encontrar esse espaço. Pelo menos é o que acredito, e também minha maneira de encontrar a felicidade pessoal e profissionalmente.

Existe um papel da improvisação que, para além da técnica, causa algo em quem assiste? Quer dizer… O formato do improvisar exige que se diga sim para o outro, mesmo quando se diz não; que se aceite a proposta do outro…

É por isso que o público gosta do espetáculo de improviso: porque ele tem diante de seus olhos uma pessoa vulnerável, frágil, sem garantia de acerto, sendo que o erro pode ser um acerto. Para quem vê, é muito libertador, porque a efetividade não está em primeiro plano – como acontece na vida real. Inclusive muitas pessoas buscam cursos de improvisação justamente para se sentirem mais livres.

É por isso que o palhaço e o improviso funcionam tão bem no hospital? Porque as crianças de certa forma se sentem presas ali naquele ambiente, ou em um corpo doente?

É diferente. Na verdade, são os atores que têm que entrar no mundo das crianças. Elas sim são livres.

O palhaço tem que igualar a criança em liberdade, reencontrar a brincadeira. A figura no palhaço, no hospital, é mais importante que a do improviso. Lá, a limitação é física, da dor. Então é necessário encontrar o lado saudável para que a criança possa brincar: cabe aos profissionais da saúde dar atenção à dor e à doença; aos palhaços cabe ressaltar a saúde.

Vocês, no Doutores da Alegria, faziam avaliações regulares sobre os efeitos do trabalho dos palhaços nos hospitais. O que era possível perceber a respeito do ambiente hospitalar antes e depois da intervenção?

Eu fiquei no Doutores da Alegria por nove anos, mas saí há seis. Então posso falar apenas a respeito do que acontecia naquela época. Éramos acompanhados por uma psicóloga, e ela realizava medições com uma apuração mais técnica, mais exata. O que os palhaços podiam ver claramente era a transformação por meio do exercício do teatro. Isso era muito visível. O palhaço é o responsável por levar o mundo de fora para dentro do hospital, por isso o olhar do palhaço é tão importante: é um olhar lúdico, enquanto o ambiente do hospital é inóspito.

Existe um caso especial para você?

Tem um que eu inclusive contei no filme Doutores da Alegria, e retrata bem essa questão de trazer o mundo de fora para dentro do hospital. Estava em um quarto realizando uma intervenção com um menino de cinco anos, chamado João. Estava organizando uma competição de vôlei. De um lado ficavam a criança e os avós; do outro, os palhaços.

Da janela do quarto era possível ver o prédio de um amigo, que morava na cobertura. Propus para o João ligar para esse meu amigo – que eu chamei de “duende Davi”, porque ele é muito baixinho – para que ele aparecesse e nos visse na janela: “duende Davi, vem me ver?”, o João disse quando ligou. Combinei com o Davi uma visita ao menino, inclusive conseguimos para ele uma roupa de duende. Quando ele foi, o João não estava no quarto, não conseguimos encontrá-lo.

Outro dia retornei ao hospital e encontrei João, ao que ligamos para o duende Davi, e ele apareceu e até subiu no telhado da cobertura! Vimos tudo pela janela, acompanhando pelo telefone. De repente, todas as enfermeiras e outros pacientes estavam na janela para ver o duende Davi – virou algazarra. Meu amigo estava indo viajar, então teve que se despedir do João. Nesse mesmo momento, a enfermeira chefe passou, viu a bagunça, mas não viu o duende. João negou tudo, preferiu manter o segredo entre nós. Chorou tanto de emoção…

Depois disso, a enfermeira chefe recebeu cartas do “duende” por um mês em seu escaninho [risos].

O que é mais difícil e o que é essencial para um palhaço que trabalha dentro do hospital?

O mais difícil acho que é justamente se propor a trabalhar em um hospital, ter contato com a morte de maneira tão próxima. É um trabalho delicado, que vai além do hospital, e faz com que você reveja todos os seus valores e crenças. O fundamental é reconhecer que você, como palhaço, não é o super homem. Você está ali para transformar o ambiente do hospital por meio da arte, mas em relação à doença você é impotente.

Atualmente você está com outro projeto, o Jogando no Quintal, que é um grande sucesso em São Paulo. Também é um trabalho de palhaços e também usa o improviso. Quais as diferenças entre o Jogando e o Doutores?

Externamente, são ambientes diferentes, o que determina as condutas. A abordagem de uma criança hospitalizada, claro, é diferente da de um público “normal”. Mas a vontade de tornar a arte um veículo de transformação permeia os dois projetos.