Quando o restauro é na parede do coração

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Quando o restauro é na parede do coração

Projeto Restauração. (museu, mulheres, retrato, unicultura) 26/10/2018 Foto: Brunno Covello

  • Especialista em conservação e restauro, Tatiana Zanelatto queria ajudantes para o trabalho. E da parceria com Ricardo Trento veio a decisão de capacitar mulheres vítimas de agressão para essa missão de fazer brotar história das paredes

Oito mulheres vítimas de agressão, atendidas pela Casa da Mulher Brasileira em Curitiba, num projeto inédito, aprendem restauração de paredes dentro do Museu Casa Alfredo Andersen. Os três meses de aulas com Tatiana Zanelatto terminarão em dezembro, quando o prédio público reformado e restaurado será devolvido à população. “No fim nunca foi só sobre restaurar um prédio, mas de restaurarmos a nós mesmas”, diz uma das alunas. Aos 42 anos de idade, ela disputa na Justiça a guarda dos filhos com o pai das crianças.

Nem todas foram agredidas fisicamente, mas violência as oito sofreram. Vinda de Manaus, a educadora de 35 anos viu a Delegacia de Crimes Cibernéticos confirmar que seu “amigo”, sempre por perto, oferecendo carona e companhia, sabia exatamente onde ela estava a cada hora do dia. Ele tinha invadido sua privacidade e suas redes sociais. A mais nova do grupo, com 25, deixou a casa da família com os dois filhos após o rapaz que a mãe namorava maltratar as crianças.

As histórias das alunas de Tatiana Zanelatto se misturam umas às outras, igual elas aprenderam nesses dois meses de curso de restauração a confiar umas nas outras. “Eu sempre tive dificuldade para achar mão de obra qualificada quando pegava um trabalho novo. Daí eu pensei: e se eu capacitasse mulheres para me ajudarem?”, conta a profissional, com 15 anos de experiência na atividade.

Foi assim que nasceu o Projeto Restauração, idealizado pela Tatiana e pela ONG Unicultura, de Ricardo Trento, depois aprovado na Lei do Mecenato de Curitiba. A atividade chamou a atenção do Instituto Joanir Zonta, da Randon Rodoparaná e da Imax Diagnóstico por Imagem, que investiram na proposta. Agora cada uma das alunas recebe uma bolsa auxílio de R$ 800 por mês, auxílio transporte no dia da capacitação e apoio psicológico.

“Na hora eu não acreditei. Quem é que vai pagar para ensinar alguém?”, brincou a marmiteira de 59 anos de idade que veio de Belém faz pouco tempo, para morar com o filho e se afastar de um relacionamento. Aqui, recorreu à Casa da Mulher Brasileira quando soube dos avanços do ex-parceiro sobre um imóvel que construíra na cidade natal. A assistência jurídica salvou-lhe o bem.

Depois de 20 anos casada, a diarista viu no processo seletivo para o Projeto Restauração uma oportunidade. Aos 37, ela tinha se mudado de Porto União para Curitiba e escapado de uma relação na qual era física e verbalmente agredida pelo companheiro. “Não nasci princesa, nasci guerreira”, completa a colega, 34 anos, que tem aceitado qualquer bico para sustentar a si e a filha pequena.

Quando pensou o Projeto Restauração, Tatiana Zanelatto  sabia que nem todas iriam se inserir nesse mercado de trabalho instantaneamente. As aulas misturam técnicas simples de pintura, que podem ser usadas na construção civil, às noções de artes e patrimônio cultural exigidas de quem se propõe a restaurar bens históricos. No Museu Casa Alfredo Andersen, será recuperado um trecho superior da parede, originalmente ornado com pinturas decorativas.

“As paredes estão cobertas com mais de oito camadas de pintura lisa, na cor clara, e sua pintura decorativa original estava bastante fragilizada, apresentando desgastes, perda de camada de policromia, sujidades e fissura”, diz Tatiana.

“A última intervenção desse tipo no Museu Casa Alfredo Andersen aconteceu há 30 anos”, acrescenta, relatando que tem um carinho especial pelo prédio, transformado em espaço cultural em 1979. Por coincidência, a unidade passa por uma reforma, que será concluída ao mesmo tempo que o curso, no mês que vem.

“Eu quero ajeitar a minha casa”, diz a jovem de 28 anos de idade que continua casada. O marido, conta, melhorou bastante quando finalmente percebeu como a maltratava. Ela recorreu duas vezes à Casa da Mulher Brasileira de Curitiba, localizada na avenida Paraná, 870. Esse espaço foi pensado para que funcionem juntas, de forma coordenada, a Delegacia da Mulher, a Defensoria Pública, o Juizado da Violência Doméstica e Familiar, o Ministério Público e a Patrulha Maria da Penha.

Para Tatiana, há uma beleza subjacente às aulas. O artista Alfredo Andersen, imigrante em Curitiba, como muitas das mulheres que participam do Projeto Restauração, tinha nesse prédio um ateliê escola. Ensiná-las reconecta as paredes com o propósito idealizado pela pessoa que tornou o endereço famoso, numa construção discreta do bairro São Francisco, tombada pelo Patrimônio Histórico em 1971.

Além das 150 horas de atividade formativa, ao longo da iniciativa está prevista a realização de cinco palestras abertas à comunidade. A programação pode ser consultada na página do Museu Casa Alfredo Andersen na internet.

Esses “aulões” são parte da contrapartida social do projeto, que tem o apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, da Fundação Cultural de Curitiba e das Tintas Sherwin Williams. A Universidade Tecnológica Federal do Paraná deu às alunas, nos laboratórios da instituição de ensino, capacitação teórica e prática em química, tintas e nanotecnologia aplicada à cor.